Criatura
Sou um vulto de indagações
Uma caricatura de menina, de mulher...
Uma voz imortal em seu discurso
Uma obra criada à moldura
Sou a criatura.
A alma como uma gaveta: fechada ou aberta e casualmente vasculhada...
sexta-feira, 20 de março de 2009
quinta-feira, 19 de março de 2009
O escritório
O dia começa aqui no Rio de Janeiro. Sol que brilha e incide raios de esperança. Pelas ruas, quadros pintados à mão, buquês de rosas desabrochando e o som do saxofone tocado por um desconhecido de calçada, melodia que compõe a beleza dos pássaros riscando o céu azul.
As buzinas dos carros insistentes soavam diante dos semáforos: uma breve imagem que alterna as cores verde e vermelha. Curiosamente, as pessoas apressavam os passos, talvez para não perderem a hora.
Com poucas moedas no bolso, eu ia em direção aos comércios, as agências de emprego. Bati de porta em porta e fiz propostas, eu ouvi condições e não certezas. Comi o pão de queijo barato da esquina e distribui currículos até voltar de pasta vazia. Nenhum telefonema convidativo, eu caminhava pela rua quase que a insistir na necessidade de uma chance que valia conquistar, foi quando vi papéis voando sobre a mesa de um escritório de esquina assim como eu voava nos pensamentos... Olhei pelo vidro janela.
No escritório, ao lado de um bebedouro velho, havia um homem com a cara meio amarrotada. Tomei coragem e entrei sentando-me na cadeira de frente para o homem. Eu disse com um ar de interesse:
_ Bom dia, senhor. Há uma vaga aqui nesse estabelecimento para auxiliar de escritório?
O homem respondeu meio sonolento:
_ Não, senhor...Aqui não há interesse de contratar auxiliar de escritório.
Insisti em questionar:
_ E para serviço de banco? Sou excelente boy,eu já trabalhei com isso.
E o homem respondeu com desdém:
_Não, aqui não fazemos serviço de banco.
Eu rebati deixando o homem mais ainda intrigado:
_ E na contabilidade? Sou formado em contabilidade, posso cuidar dos gastos e finanças.
_Não há vaga, não senhor. Nós não temos gastado, não há lucro algum.
Eu queria uma chance. E por causa disto, tendenciosamente, procurei perguntar por outro cargo:
_ E vaga para serviços gerais? Sou ótimo na limpeza, vejo que o vidro está sujo e ali atrás deve ter um banheiro como todo escritório tem, posso limpá-lo com capricho!
_Não senhor. Aqui nós não limpamos nada.
_Então se não precisa de nada, o que o senhor faz aqui?Perguntei já irritado.
Ele disse com toda paciência:
_ O que faço aqui é isso.
_Isso o quê? Perguntei.
_ Responder essas perguntas que o senhor fez em relação a vaga de emprego aqui.
_ O senhor não está falando sério! Eu disse amuado com todo aquele rodeio. E emendei uma pergunta:
_Quem é o dono disso aqui?Me fala!Eu quero falar com ele agora!
Então o homem olhou para o relógio, levantou mudo da cadeira e tirando uma chave do bolso, tranquilo indagou com a cabeça:
_ O senhor vai ficar aí? Eu vou fechar.
Eu já não me continha e gritei :
_ Não vai me responder?! Lhe perguntei, quem é o dono dessa espelunca aqui!
Ele veio calmo e disse em tom baixo:
_ Encerrei o expediente. Agora eu não respondo mais nada.
E andou até a porta me chamando:
_ Vem, eu vou trancar! Não posso trancar com o senhor aí dentro.
O dia começa aqui no Rio de Janeiro. Sol que brilha e incide raios de esperança. Pelas ruas, quadros pintados à mão, buquês de rosas desabrochando e o som do saxofone tocado por um desconhecido de calçada, melodia que compõe a beleza dos pássaros riscando o céu azul.
As buzinas dos carros insistentes soavam diante dos semáforos: uma breve imagem que alterna as cores verde e vermelha. Curiosamente, as pessoas apressavam os passos, talvez para não perderem a hora.
Com poucas moedas no bolso, eu ia em direção aos comércios, as agências de emprego. Bati de porta em porta e fiz propostas, eu ouvi condições e não certezas. Comi o pão de queijo barato da esquina e distribui currículos até voltar de pasta vazia. Nenhum telefonema convidativo, eu caminhava pela rua quase que a insistir na necessidade de uma chance que valia conquistar, foi quando vi papéis voando sobre a mesa de um escritório de esquina assim como eu voava nos pensamentos... Olhei pelo vidro janela.
No escritório, ao lado de um bebedouro velho, havia um homem com a cara meio amarrotada. Tomei coragem e entrei sentando-me na cadeira de frente para o homem. Eu disse com um ar de interesse:
_ Bom dia, senhor. Há uma vaga aqui nesse estabelecimento para auxiliar de escritório?
O homem respondeu meio sonolento:
_ Não, senhor...Aqui não há interesse de contratar auxiliar de escritório.
Insisti em questionar:
_ E para serviço de banco? Sou excelente boy,eu já trabalhei com isso.
E o homem respondeu com desdém:
_Não, aqui não fazemos serviço de banco.
Eu rebati deixando o homem mais ainda intrigado:
_ E na contabilidade? Sou formado em contabilidade, posso cuidar dos gastos e finanças.
_Não há vaga, não senhor. Nós não temos gastado, não há lucro algum.
Eu queria uma chance. E por causa disto, tendenciosamente, procurei perguntar por outro cargo:
_ E vaga para serviços gerais? Sou ótimo na limpeza, vejo que o vidro está sujo e ali atrás deve ter um banheiro como todo escritório tem, posso limpá-lo com capricho!
_Não senhor. Aqui nós não limpamos nada.
_Então se não precisa de nada, o que o senhor faz aqui?Perguntei já irritado.
Ele disse com toda paciência:
_ O que faço aqui é isso.
_Isso o quê? Perguntei.
_ Responder essas perguntas que o senhor fez em relação a vaga de emprego aqui.
_ O senhor não está falando sério! Eu disse amuado com todo aquele rodeio. E emendei uma pergunta:
_Quem é o dono disso aqui?Me fala!Eu quero falar com ele agora!
Então o homem olhou para o relógio, levantou mudo da cadeira e tirando uma chave do bolso, tranquilo indagou com a cabeça:
_ O senhor vai ficar aí? Eu vou fechar.
Eu já não me continha e gritei :
_ Não vai me responder?! Lhe perguntei, quem é o dono dessa espelunca aqui!
Ele veio calmo e disse em tom baixo:
_ Encerrei o expediente. Agora eu não respondo mais nada.
E andou até a porta me chamando:
_ Vem, eu vou trancar! Não posso trancar com o senhor aí dentro.
domingo, 8 de março de 2009
quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009
Do tempo de Mamãe
Agulha de toca disco, álbum de foto papel, negativo. Banho de mangueira, balanço de árvore, trocar de bonecas, calçarem os sapatos, valsar aos 15 anos. Viagem de trem, passeio de fusca, biquíni de bolinha, bóia de pneu. Beber Coca-cola, juntar as tampinhas, guardar os cascos. Carnaval de pá João, Carnaval de palhacinho, acabou o confete, quarta-feira de cinzas.
Agulha de toca disco, álbum de foto papel, negativo. Banho de mangueira, balanço de árvore, trocar de bonecas, calçarem os sapatos, valsar aos 15 anos. Viagem de trem, passeio de fusca, biquíni de bolinha, bóia de pneu. Beber Coca-cola, juntar as tampinhas, guardar os cascos. Carnaval de pá João, Carnaval de palhacinho, acabou o confete, quarta-feira de cinzas.
terça-feira, 17 de fevereiro de 2009
As vozes...
_Querer-te assim? é ...indecisão, é dura caminhada de pés descalços... (uma voz). Apelos de uma alma em ardor, dum abrasamento diante do que reluz.
Sei que não me faço compreender, vejo de perto minha angustia, minha náusea ao teimar em dizer uns instantes o que quero escrever... (essa sou eu ) . Ouço as vozes da consciência elas berram,cochicham...
Dos mundos que me cercam, grandes apelos murmuram...eu ouço as vozes, tento decifrar. As vozes? Bem, talvez entenda, deve ouvi-las também. Tem dias que elas brigam umas com as outras e estou no meio delas.
As vozes, as vozes são minhas se me passarem pelos lábios e por vezes emitirem esses sons...tenho meu tempo interno em educá-las ou somente aguardar em breve meditações...Mas as vozes, elas às vezes não são de nada, se eu lhe dou ouvidos, caio na tentação em dizer o que não deveria.
Dos mundos que me cercam, grandes apelos murmuram...eu ouço as vozes, tento decifrar. As vozes? Bem, talvez entenda, deve ouvi-las também. Tem dias que elas brigam umas com as outras e estou no meio delas.
As vozes, as vozes são minhas se me passarem pelos lábios e por vezes emitirem esses sons...tenho meu tempo interno em educá-las ou somente aguardar em breve meditações...Mas as vozes, elas às vezes não são de nada, se eu lhe dou ouvidos, caio na tentação em dizer o que não deveria.
Danem-se então essas vozes caducas presas à memória!
_ Vai, vai a festa hoje, coloque o melhor vestido. E não deixe de se maquiar, apague esse rosto angelical! (outra voz)
_ Não. E a prova que irá fazer? Precisa estudar! Volte agora mesmo para casa, não dê mais um passo! ( e mais uma voz).
_ Está perdendo a vida! Quer ficar sem saber o que é encontrá-lo de novo? (outra voz).
Me vejo nessa situação, (essa sou eu). Sem poder com essas vozes. Vão todas para o inferno! E me deixe em paz!
Se as ordeno que parem, eu fico sem saber como vou pensar...
As vozes mais difíceis de coordenar e de dá ouvidos, são as impreguinadas de emoção. Estas não querem sair e serem pronunciadas, pois o momento é de tal importância, que elas se perdem. Esses tipos de vozes me pregam cada peça...ordenam de imediato o que devo fazer...e o que devo falar e acabo obedecendo, mesmo que ainda venha me machucar (e essa sou eu) por culpa do coração.
Vozes que são minhas, vozes que não são...eu julgo as suas investidas, tomo posição com elas e diante delas. O melhor a fazer, é sentir essas vibrações que querem a todo custo percorrer a laringe. Assim ei de compor meu riso, meu canto, meu choro. Ei também de me enfurecer, ei de amar e desamar.
Ei de guardá-las, ei de dizê-las inevitavelmente, umas palavras...
domingo, 15 de fevereiro de 2009
Segredo
Digas em tom frêmito
soando uma nota só, um segredo.
Um segredo ao pé do ouvido
que revele o mais íntimo
sussurro cálido...
Adormece os meus sentidos,
arrasta esse rosto na minha pele...
Roça essa barba cerrada até o umbigo,
até que eu suspire e exale o seu cheiro.
Vês que sou escrava dos teus desejos.
Sinto contra o peito
o palpitar acelerado
que soa trêmulo em ti.
Réu confesso
guardas este segredo
velado em sua boca
e juras o amor que não sentes.
Pois em ti abrigas somente
um desejo que move.
Digas em tom frêmito
soando uma nota só, um segredo.
Um segredo ao pé do ouvido
que revele o mais íntimo
sussurro cálido...
Adormece os meus sentidos,
arrasta esse rosto na minha pele...
Roça essa barba cerrada até o umbigo,
até que eu suspire e exale o seu cheiro.
Vês que sou escrava dos teus desejos.
Sinto contra o peito
o palpitar acelerado
que soa trêmulo em ti.
Réu confesso
guardas este segredo
velado em sua boca
e juras o amor que não sentes.
Pois em ti abrigas somente
um desejo que move.
sábado, 14 de fevereiro de 2009
Amor moribundo
Cárcere soturno.
Leito recoberto de flores.
Gestos obsessivos.
Fragmentos polidos.
Um peito contrito
Da dor da partida
Da dor não contida.
Num pousar simplório,
a mão acolhida pela máquina de escrever,
é um subterfúgio plausível
que me cabe.
Fazer-te memorável em retrato
fundo preto,
traçado este olhar tácito,
um amor moribundo
quis eu sepultar.
Cárcere soturno.
Leito recoberto de flores.
Gestos obsessivos.
Fragmentos polidos.
Um peito contrito
Da dor da partida
Da dor não contida.
Num pousar simplório,
a mão acolhida pela máquina de escrever,
é um subterfúgio plausível
que me cabe.
Fazer-te memorável em retrato
fundo preto,
traçado este olhar tácito,
um amor moribundo
quis eu sepultar.
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