quinta-feira, 14 de maio de 2009

O catedrático

Ele me faz ocultar segredos que nem aos pés do oratório devo eu confessar. Mas por inquietude de minh’alma revolveu-me o que se passa nos recônditos da mente e do espírito... e o resguardo, foi desfeito. Devo eu fazer um relato circunstanciado de sua pessoa? Quase isso...Ele era homem distinto e tinha sobriedade no trajar. Lembro-me bem... dos fios de cabelos ruivos, a barba aparada. Uma pele tão alva quanto a cor da camisa. E se quisesse fazia se passar por alemão, mas era apenas um brasileiro descendente. A impressão que eu tinha era que seu andar não escapava a observação das alunas e quando ele parava por alguns segundos, parecia sim pousar para fotos. Percebi que mantinha o grau da formalidade e por isso a polidez e o rigor o acompanhavam. Empregava termos inusuais, mas não tinha um discurso pretensioso.
Lecionava filosofia. E fora de sala de aula fazia seus comentários sobre o movimento da vida, do ser, da essência do ser... sua linha de estudos, estava entrelaçada em Heidegger. Suas discussões também envolviam Nietzsche, Sartre... E não escondia seu encantamento pela literatura alemã apreciava Schiller, Goethe e revelava-se um admirador da poesia de Rainer Rilke, poeta que compartilhou um amor louco pela Salomé, a mesma que Wagner e Nietzsche, amaram.
Em uma dessas conversas, fora de sala de aula, nos pegamos sem reservas a compartilhar nossos gostos por literaturas. E fui eu quem disse:
_ Professor, adoro Leminski e Clarice Lispector. Sempre que posso vou a um sarau de poesias. Sou a amante do vinho, do queijo, do violão e da poesia! E ele me sorriu.
Disse-me que tinha um ciclo de estudos com alguns autores de literatura, vaidosamente mencionou sua participação como escritor.
Quando terminei o curso de filosofia trocamos e-mails e números de telefones. Ele me convidou para ir ao lançamento de seu terceiro livro em parceria com outros autores. Cogitei... Talvez não o encontrasse no tumulto, pois ele ia pousar para as fotos, fazer suas dedicatórias, dar seus autógrafos e entrevistas. Não fui ao seu encontro. A chuva forte me prendeu em casa. Apoiei-me nesse pretexto. Talvez eu me acovardava, talvez eu adiasse o que estava por vir. E logo nos vimos no corredor da faculdade, entre uma sala e outra... a relação professor e aluna se perdeu e deu lugar a uma afinidade.
Chamava-me sempre para ir até a porta da sala, no término de suas aulas, entre uma aula e outra, nos intervalos. Conversávamos sobre assuntos diversos, sempre me encantando com livros de presente. É... Eu me envolvia. Nós nos envolvíamos. Até que o primeiro encontro foi sugerido feito convite quando me pegou a mão. E fui eu quem disse nada acanhada com sorriso nos lábios:
_ Professor, por que sempre me convida para lançamentos de livros? E não me convida para tomarmos um vinho?
(Risos). E ele respondeu:
_É verdade. E você, nunca apareceu nos lançamentos! Podemos ir ao calçadão assistir ao Encontro dos poetas e logo depois...
_ E logo depois?
(Risos).
_ Então, aceita tomar um bom vinho comigo?
Neste momento se lhes tateassem as maças de seu rosto sentiriam como elas estavam quentes. Suas feições de alemão se misturavam em um rosto ruborizado, ele não soube desviar seu olhar. O que refletiu também em mim porque apesar do meu jeito falante, sempre disfarcei a tal timidez que às vezes me atrapalhava. Sim. Pensei por um instante na insinuação que fiz. Não sei se cheguei a causar um eventual constrangimento. Teria sido somente impressão minha?
Minha ousadia havia despertado mais a vontade de estarmos juntos. Vontade muito maior do que antes. E esse encontro existiu. Esses encontros foram se repetindo...
Paixão?! Fetiche de aluna e professor.
Certa vez...
Tocou-me com as pontas dos dedos lentamente...É assim que se toca uma mulher como você! Fitando-me com olhos excitados fiz cair todo vestuário... Duas taças de sorvete de creme derretiam-se na cabeceira da cama, nos inquietávamos. Suas mãos estavam ocupadas. Seu corpo queria ocupar. Corpo nu e o sorvete derramado que penetra a derme. A língua se arrastava nervosamente na nuca e vinha percorrendo desde a ponta da orelha ao contorno dos mamilos até poder chegar a cavidade dos membros que se abriam...
Da preliminar à intimidade...Da carne trêmula à deslocação... Despidos estávamos. Entre uivos e gemidos histéricos repetia-se simultaneamente o ritmo regular da dança dos corpos... Por um momento, seu corpo estremeceu agitado e caiu sobre a cama. Corpo lânguido, espesso, fronte suada... e assim veio repousar a cabeça em meu ventre sem dizer uma palavra. E tornou a suceder outras vezes esses instantes... Ato após ato, eu me aninhava em seu peito prometendo esquecer o mundo que continuava lá fora.
Por vezes, nossos encontros tornaram-se atrativos. Visitamos as exposições de Debret e restaurantes de pratos requintados da cozinha alemã. Passeávamos de bonde em Santa Tereza. Andávamos de mãos dadas, feitos dois namorados pela Chácara do Céu para contemplarmos a melhor vista do Rio de Janeiro. Mas e o vinho que não tomamos? No restaurante, ele assinou um cartão dizendo assim:
Lembranças do dia em que não tomamos vinho.
Ass.: R.K.

E o brinde, não foi adiado. Na outra ocasião, brindávamos ao sentimento que nos unia e as verdades que ainda não tínhamos. Ele apanhou a rolha do vinho e uma caneta de bolso, gravou na rolha a seguinte mensagem: In vino Veritas.
No vinho está a verdade! A embriaguez soltaria a língua e faria as verdades virem? Nem por tanto tempo senti as verdades que julgava descobrir. Ele me dizia ao final de nossos encontros:
_Lembra. E na primeira vez que ouvi perguntei:
_Lembra de quê?
Ele respondeu:
_ De lembrar. Erinnst.
***
Passado alguns dias, recebi um cartão postal pelo correio que me dizia assim:

Parti apressadamente para Alemanha,
na condição de cumprir o doutorado.
Quis evitar despedidas.
R.K.

Nada soube dele neste período e devia regressar a Universidade. E quando? Eu me angustiava de leve impressão dele... o vento que passou por mim. Tenho cá minhas dúvidas. Era quase amor. Sei que me foi uma travessura, uma traquinice dessas que a gente faz escondido e com gosto.
Não, não parei de lembrar. E seu telefone não me dava sinal. Aprendi a chorar quieta e de luz apagada, sentir no rosto as lágrimas que rolavam quentes. O cartão postal, eu passei a não ler mais. Todas as vezes que o fazia me vinha o mal estar. Talvez quem me lê lance suas pequenas desconfianças...
Segui de férias. Espaço de um tempo que vigorou pouco, logo retornei. E não demorou muito para obter notícias de meu professor. Fui ao departamento saber a respeito dele e foi aí que me contaram.
_Bom dia! Por favor, me ajude! Precisava falar com o professor de filosofia. Quando ele vem dar aula?
_ A senhorita é aluna?
_Sim.
_Ele foi para Alemanha terminar o doutorado. Viveu no país durante esse período, mas ocorreu uma fatalidade. Ainda não sabemos quem vai substituir na disciplina.
_O que aconteceu? Me diga!? O que houve com o professor? Eu insisto!
_ Não podemos dar informações a respeito disso ainda. Por que está tão aflita?
_ É que por Deus, ele não é só meu professor é também... meu amigo e... é isso estou preocupada. A senhora disse que ocorreu uma fatalidade? Por favor, não me esconda!
_É melhor se sentar, por favor.
_ Diga-me o que houve?
_Ele faleceu. Foi assassinado com dois tiros no peito por um grupo extrema direita adepto à xenofobia, o preconceito ao estrangeiro. Eles o atacaram na saída de uma livraria.
Tentei me levantar da cadeira foi quando a vista escureceu. Cai desmaiada.
Tive a perda passageira dos sentidos mas fui socorrida na Universidade. Acordei em um quarto de hospital parecia que eu tinha levado umas pancadas. O corpo me doia todo, eu queimava de febre altíssima! Mamãe veio tomar conta de mim porque estava delirante demais por conta da febre.
Disse minha mãe que naquela noite eu saculejava na cama abatida e repetia de maneira confusa umas palavras. Balbuciava seguidamente quase uns versos assim: "Mil dores físicas do que a dor de um amor perdido..."
***
Levei uns dias de recuperação. Quando retornei para casa, mais um cartão postal me aguardava da Alemanha. Eu abri mas antes vi no envelope uma mensagem dos correios esclarecendo que houve atraso de entrega devido ao período de greve. Abri e ali estava uma mensagem de meu professor, a última que eu receberia que dizia assim:
Não! Não estou escrevendo para justificar. E nem para citar frases de Ovídio (A arte de Amar).
Escrevo-lhe com a audácia de um amante que teima em lembrar.
Volto essa semana para podermos tomar o nosso vinho. Quero o meu abrigo, aqui faz tanto frio!
Parti. Parte de mim fica em ti. Parte de ti fica em mim.
Lembra. Erinnst.
R.K.

Ele tinha mesmo a razão ao escrever umas palavras. Parte dele ficou em mim... não foi somente a gestação de uns versos ou coisa que valha. Quando fazíamos amor e depois eu chegava em casa, ainda ficava empreguinada dele...minha pele exalava esse cheiro. Mas não é bem isso que eu ia dizer. O que eu ia dizer é que parte dele ficou em mim sim. Quando tomei alta do hospital me veio a revelação e era mais que uma boa nova. Estou grávida.
Grávida? Grávida! Ohh... grávida!! O mundo me dizia. Um fruto maturando em meu ventre...Sim.
Eu não deixei de lembrar. Erinnst.
Ps: Início em 28/11/08, término 15/05/09. Ainda sujeito a alterações.
TODOS OS DIREITOS RESERVADOS AO AUTOR.

7 comentários:

f@ disse...

Gostei mto...

B E L O... MTO BELO...

imenso beijinho

Camilla Ribeiro. disse...

Adorei! Só vim deixar uma primeira imprenssão: li. Mas, preciso refletir... Afinal, um conto tão bem trabalhado merece. Depois eu volto. 'Cuide bem da criança.' Rsss. Muitos beijos e abraços. E você é bem observadora, hein?! Tem muito a ver com o que gosto. Parabéns pelo conto!

Paulo Rogério disse...

Triste. Envolvente. Sagrado. Silêncio. Vida. Completo.

Desengavetados disse...

Muito obrigada!!!!
Os comentários de vcs são valiosos pra mim!Tenho certeza q muita gente ainda vai falar mais desse conto q pra mim é um marco.
Quero tb agradecer o pessoal q visita e comenta por fora sem deixar por escrito algo. Isso tb é de grande valia pq às vezes tem comentário q precisa ser falado e ñ escrito.
Bjoss!!!Valeu pela atenção!

8 de Junho de 2009 06:17

Godet disse...

Li rapidamente sem poder saborear os detalhes...Estou sem computador em casa. Juro que voltarei!!! Gostei muito.
bjsssss

Gusto Vibe disse...

Alguns trechos que desengavetamos:

"eu me aninhava em seu peito prometendo esquecer o mundo que continuava lá fora."
"...e de luz apagada, sentir no rosto as lágrimas que rolavam quentes."
"Mil dores físicas do que a dor de um amor perdido..."
"Parte de mim fica em ti. Parte de ti fica em mim."

Você está de parabéns. Lindo texto. Adoramos a história!

Gusto & Tati

Desengavetados disse...

É bom saber que vale a pena desengavetar minhas ideias!