terça-feira, 22 de julho de 2008

Farelos

O dia em que se está
é isolamento.
Vasto espaço ermo, sem população humana.
Um átimo de silêncio.
Privação voluntária, pessoal. Uma via a qual atravesso.
A cada sinal, estreita-se o tempo equivalente.
É diálogo meu.
E a vida se movimenta,
dizem até que a Terra não para de girar. Nela, habitam corpos cansados.
Pés se apóiam ao chão.
Olhos se cruzam permitindo desvios.
Garganta ferida com o punhal. A vida é uma aparição.
Mas no caminho da rua para casa, é deserto.
Cato farelos de sonhos
Cato farelos de amores
Tenho os meus flagelos.
Cato farelos e vou à toca para mastigá-los.
Cato farelos da toca e os pedaços não sei repartir.
Mas posso contá-los.
Contá-los a minha consciência.
Não faço análise para descobrir quem sou.
Essa é uma resposta que nunca vou obter,
minha constante fusão se perde em minhas variações.
Diversos papéis são executados,
e é preciso ainda ter educação ao sentar à mesa.
Curtas amizades se vão, queria ter criado raiz.
Por que as relações amistosas se tornam desconhecidas?
Não faço análise para descobrir quem sou,
cato farelos às escondidas,
em uma cena muda,
quase pantomima.
Sou o dançarino solista que dança de pernas quebradas
e se relaciona reciprocamente
ao tom harmônico da vida.

Andréa de Azevedo.

2 comentários:

Alexandro disse...

Este poema retrata com singeleza a questão corriqueira do ser humano e sua condição paradoxal. Por isso, gostei muito de "Farelos". Andréia mostra-se, também, bastante intimista em seus poemas.

Desengavetados disse...

Que bom q gostou Alex!
Esse espaço é aberto para esses comentários.
Intimista sou, só podia dar nisso. Sou uma leitora de Clarice Lispector.rs